Carta Adaptada
Minha demora para escrever não é justificavel, eu sei. Mas tenho tido muita dor de estômago e muita vontade. E é ruim quando a vontade é só.
Meu caro amigo,
se é que posso chamar de "caro" alguém que não conheço.
Importa muito pouco que você compreenda o motivo dessa carta na qual só falo de mim, e é ao mesmo tempo nescessário, para mim, que me compreenda e compreenda o que escrevo. Afinal de contas é indispensável que uma carta haja sido escrita para alguém e que seja significadamente apreendida por aquele para qual ela foi composta.
Mando essa carta ao espelho. Cartas são espelhos e agora é realmente importante escrever-lhe.
Estou terrena. Nem acontecimentos fúnebres nem encontros inesperados me tiram o pé do chão.
Tenho procurado preencher-me descontrolada e inconsequentemente comendo e gastando dinheiro - aumentando meu peso e meu peso na consciência - o que torna mais difícil desgrudar os pés do chão. Sinto-me peso. E para além disso, tempo e velhas histórias.
Nesse momento o tempo é devagar. Rôo descontrolada e inconsequentemente minhas unhas. O tempo não tem me dado meio-termo - passa devagar até que eu roa a carne, e quando se acelera, é tão pouco, que não permite que elas cresçam novamente.
Quando acabam as unhas, chega um ponto em que a dor é maior que o prazer de roê-las, sinto no estômago um enjôo, engoli o tempo, aí então ele passa em mim tal qual um irritante e irremediavel mal-estar. O tempo é um grande mal-estar em mim, Espelho, e já não sei o que fazer com isso que é tão dentro.
Já é ano novo.
Talvez, aproveitando-me do calendário, seja hora de novas histórias (aquela velha história de anos novos). Esquecer um pouco.
Certa vez, nessas leituras curiosas, mas pouco profundas, ou em uma dessas nossas conversas interessadas, cheias de informações e pouco informadas, Nietzsche me disse que: "não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho ou presente sem esquecimento", de fato não pode. A verdade só é através do esquecimento, Espelho.
Não sei se são verdades as histórias que procuro, mas preciso de mais verdades e mais ainda de esquecimento. Só distinguimos o que são folhas (secas, caídas de uma magueira... lembra? ) se esquecermos detalhes e histórias peculiares de uma folha específica, para então dizermos que é folha, como tantas outras folhas, e assim com cada uma delas, até o ponto em que possamos dizer, esquecendo das diferenças, o que são e como são as folhas todas.
Preciso esquecer os detalhes das histórias passadas/inventadas para guarda-las somente como histórias, e acreditar que o que vem são histórias e são verdades, saber ver o verde das folhas do agora e do que vêm (e é difícil enxergar o que verdeja quando se anda toda madura, já falamos disso).
No entando, sei tão pouco de Nietzsche quanto sei de esquecer. Não sei mais que história vivo.
Estou terrena, autoreferente e egoísta (embora, egolatria é um luxo que ainda não saiba ter), nem acontecimentos fúnebres nem encontros inesperados tiram os meus pés do meu chão.
E aqui engulo mais um pouco desse tempo áspero e chuvoso, esperando que você me dite novas histórias do seu "aí".
E não me despeço de Espelhos.
Meu caro amigo,
se é que posso chamar de "caro" alguém que não conheço.
Importa muito pouco que você compreenda o motivo dessa carta na qual só falo de mim, e é ao mesmo tempo nescessário, para mim, que me compreenda e compreenda o que escrevo. Afinal de contas é indispensável que uma carta haja sido escrita para alguém e que seja significadamente apreendida por aquele para qual ela foi composta.
Mando essa carta ao espelho. Cartas são espelhos e agora é realmente importante escrever-lhe.
Estou terrena. Nem acontecimentos fúnebres nem encontros inesperados me tiram o pé do chão.
Tenho procurado preencher-me descontrolada e inconsequentemente comendo e gastando dinheiro - aumentando meu peso e meu peso na consciência - o que torna mais difícil desgrudar os pés do chão. Sinto-me peso. E para além disso, tempo e velhas histórias.
Nesse momento o tempo é devagar. Rôo descontrolada e inconsequentemente minhas unhas. O tempo não tem me dado meio-termo - passa devagar até que eu roa a carne, e quando se acelera, é tão pouco, que não permite que elas cresçam novamente.
Quando acabam as unhas, chega um ponto em que a dor é maior que o prazer de roê-las, sinto no estômago um enjôo, engoli o tempo, aí então ele passa em mim tal qual um irritante e irremediavel mal-estar. O tempo é um grande mal-estar em mim, Espelho, e já não sei o que fazer com isso que é tão dentro.
Já é ano novo.
Talvez, aproveitando-me do calendário, seja hora de novas histórias (aquela velha história de anos novos). Esquecer um pouco.
Certa vez, nessas leituras curiosas, mas pouco profundas, ou em uma dessas nossas conversas interessadas, cheias de informações e pouco informadas, Nietzsche me disse que: "não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho ou presente sem esquecimento", de fato não pode. A verdade só é através do esquecimento, Espelho.
Não sei se são verdades as histórias que procuro, mas preciso de mais verdades e mais ainda de esquecimento. Só distinguimos o que são folhas (secas, caídas de uma magueira... lembra? ) se esquecermos detalhes e histórias peculiares de uma folha específica, para então dizermos que é folha, como tantas outras folhas, e assim com cada uma delas, até o ponto em que possamos dizer, esquecendo das diferenças, o que são e como são as folhas todas.
Preciso esquecer os detalhes das histórias passadas/inventadas para guarda-las somente como histórias, e acreditar que o que vem são histórias e são verdades, saber ver o verde das folhas do agora e do que vêm (e é difícil enxergar o que verdeja quando se anda toda madura, já falamos disso).
No entando, sei tão pouco de Nietzsche quanto sei de esquecer. Não sei mais que história vivo.
Estou terrena, autoreferente e egoísta (embora, egolatria é um luxo que ainda não saiba ter), nem acontecimentos fúnebres nem encontros inesperados tiram os meus pés do meu chão.
E aqui engulo mais um pouco desse tempo áspero e chuvoso, esperando que você me dite novas histórias do seu "aí".
E não me despeço de Espelhos.

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